Quem está ganhando com o sistema de contratação mais idiota do mundo?

Alguém está ganhando algo com isso, não é possível! Não pode ser simplesmente burrice.

RODRIGO COUTO

4/23/20264 min read

Deixa eu ver se entendi direito.

Hoje, para conseguir vaga em qualquer empresa, além de ser qualificado — o que com certeza absoluta é opcional em muitos casos —, você também precisa dominar como certas plataformas de recrutamento funcionam por dentro. Existe uma, conhecida por praticamente todo profissional de RH do Brasil, que calcula um "score de compatibilidade" entre o candidato e a vaga. Se o seu currículo não espelhar a descrição palavra por palavra, você automaticamente não serve. Não importa o que você sabe fazer. Importa o que está escrito, e como está escrito.

Será que as pessoas não percebem o quão absurdo isso é?

No fim das contas, você não está contratando o profissional mais qualificado. Está contratando quem soube copiar a descrição da vaga, jogar no ChatGPT e adaptar o currículo para passar no filtro. Se a empresa busca alguém que saiba A, B e C, mas aparece uma pessoa que sabe A, B, C, D, E e F — ela deixa de ser qualificada. Fugiu do parâmetro da ferramenta.

Essa distorção criou até um mercado paralelo fascinante. Hoje existe gente que se posiciona como "especialista em plataformas de recrutamento" — e cobra para te ensinar a enganar um algoritmo que deveria, em teoria, estar do seu lado. Muita gente já olha uma vaga, vê qual plataforma está sendo usada e pensa: "Não vai dar. Já sei como isso termina."

É isso que os RHs querem?

No meu texto anterior falei sobre onde está o poder dentro das empresas e como ele é exercido dependendo do incentivo de quem o tem. É comum, infelizmente, processos seletivos que contratam não pelo talento, mas pelo "encaixe subjetivo" — o famoso fit cultural que às vezes não passa de afinidade pessoal de quem recruta. Competência fica em segundo plano.

Mas mesmo aceitando essa realidade, o que o RH ganha com esse modelo de Plataformas de recrutamento e seleção que usam ATS e IA? Porque agora nem é mais contratar por afinidade. É terceirizar para uma inteligência artificial limitada uma tarefa que deveria ser, na sua essência, humana: ler um currículo e entender quem realmente resolve o problema da empresa.

"Ah, Rodrigo, mas são 500 candidatos por vaga."

Já limpei base de CRM com mais de 10 mil leads. Volume existe em qualquer ambiente profissional sério. Não quer volume vai trabalhar no governo ou de repente se muda para dentro de uma caverna logo de vez!

Se o trabalho está desproporcional à equipe, o problema é de capacity — e esse é exatamente o ponto que quero desenvolver agora, porque ele não fica só no RH. Ele contamina toda a operação.

Pensa comigo.

Se cada reunião com cliente dura uma hora, e você ainda precisa de meia hora entre preparação e pós-reunião, estamos falando de 1h30 por cliente. Com uma jornada de 8 horas diárias, 5 dias por semana, 4 semanas por mês — isso dá 160 horas mensais.

Em teoria, você atenderia 106 clientes com qualidade real.

Quando entrei em uma empresa atuando na área pós-venda, minha carteira tinha 120 clientes. Caiu para 103 porque vários já tinham dado churn havia meses sem que ninguém percebesse. "Agora está dentro do capacity, né?" Claro — desde que minha única função fosse existir em calls. Sem daily, sem reunião de área, sem análise de carteira, sem treinamento e webinar, sem resolver problema algum. Só reunião atrás de reunião.

A conta nunca fecha. E nunca vai fechar, porque o capacity foi calculado errado desde a origem.

O resultado concreto é simples: atendimento ruim gera churn. Churn é receita indo embora todo mês. Aí não importa o quanto o comercial vende, porque entra cliente de um lado e sai do outro. A operação não cresce — pelo menos não de forma sustentável. O pós-venda abarrotado atende mal, perde cliente, e recebe ainda mais cliente para atender pior ainda. Uma espiral que se retroalimenta em câmera lenta.

E ainda existe gente que sente orgulho de trabalhar 12 horas por dia como se isso fosse virtude. Sabe o que a empresa faz quando você perde um cliente importante? Te manda embora. E as horas extras que você fez, meu caro amigo, vão direto para um local muito bacana.

Erro de gestão prejudica a empresa. Prejudica o funcionário. Mas sempre tem alguém lucrando com o caos — e esse alguém raramente é quem está na ponta fazendo o trabalho.

Agora conecta os dois pontos: se o RH — o setor responsável por trazer gente boa para dentro — também opera com capacity mal calculado e delega o julgamento humano para um algoritmo... você tem um problema estrutural gravíssimo. Porque se entrar gente qualificada, a operação talvez melhore. Mas se o filtro seleciona quem domina o jogo do algoritmo e não quem resolve problema real, você entra num buraco de incompetência sem fundo. Nem contratar bem você consegue mais.

E aí o ciclo se fecha: a empresa opera mal, o RH está sobrecarregado, o algoritmo filtra errado, os melhores candidatos passam batido, e os problemas continuam os mesmos — com rostos diferentes sentados nas mesmas cadeiras.

A pergunta que fica não é se o sistema é ruim. Isso já está escancarado.

A pergunta de um milhão de dólares é: quem está lucrando com tudo isso — e lucrando o quê exatamente?